" A minha estrela é doida! Coube-me nas sortes a Estrela-doida!" - José A. Negreiros -

sexta-feira, novembro 26, 2004

a timidez foi-me amiga de sempre. ainda é.

deixo-a agora é mais dentro, invisível aos outros.

ao tempo da consulta todos a viam em forma de silêncio ou resposta brusca pronta seca.

a irmã entrou primeiro no consultório com uma amiga pintora de alentejos. (o pai albergava toda a gente). voltaram depois misteriosas excitadas.

"vai lá agora. já podes entrar"

pois. como quem vai para o baile. estava tão farta de ouvir falar do "velho A" como o tinha estado da professora-freira. visto o filme entendia: coisas de "transferências".

homem baixo. cabeça grande. lábios grossos. olhos a querer entrar pelos meus.

cumprimentos.

"pode deitar-se ali. relaxe. volto já".

"obrigada. não tenho sono" fingiu ou não ouviu.

sentei-me de lado e esperei.


puxou a cadeira para a minha frente: " então que se passa consigo?"

voz de engate. pensei.

"nada".

"isso não pode ser ou não estaria cá".

"e por mim não estaria. é pouco o tempo. muito onde o gastar".

" tem medo da morte?".

" eu não. e o doutor, da vida?".

" eu aqui não respondo".

" então vai ser uma conversa divertida".

"não confia em mim ou não gosta?".

"nem. nem".

deu uma gargalhada. cava.

"você gosta de poesia?".

"já lhe contaram. pergunta para quê?".

"não quer contar-me o que é que a trouxe aqui?".

"o meu pai mandou. trouxe-me o autocarro".

" sabe que corro riscos? é ilegal tratá-la antes de um ano".

"não corra riscos. eu não pedi para vir. incomoda-o a ilegalidade? pelos vistos não".

" sou muito livre".

"então é esse o nome...".

"você tem dores de estomago. porquê?" .


"o médico é o senhor. descubra. é a si que pagam" .

"se você não falar...".

"que é que acontece?".

" é sempre assim?".

"como?".

"agreste".

"só quando vou ao médico e em vez de consulta me dão um questionário".

" sabe que gosto de conversar consigo?" .

"sabe que isto não é conversar?".

"volte na terça feira. ficamos por aqui".

" eu não fico vou para casa já".

à saída gorei as espectativas das duas raparigas e segui em silêncio.

terça feira era um dos nossos dias. como ia ser agora? como ver-te?

ter-lhe-iam falado de ti?

claro que sim. a rapariga loira. como ao padre.

o que eu sentia era meu e nunca o iria partilhar com ele.

não gostara do médico. só da voz.

"que se lixe!"


2 Brilhos:

Blogger Maria Branco disse...

Agreste? Eu diria rebelde, determinada, forte...

6:19 da tarde

 
Blogger Maria Branco disse...

Agreste? Eu diria rebelde, determinada, forte...

6:20 da tarde

 

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