" A minha estrela é doida! Coube-me nas sortes a Estrela-doida!" - José A. Negreiros -

terça-feira, novembro 23, 2004

habituada desde infância a clandestinidades e segredos

não precisei mentir. nunca mentia por pura falta de jeito para isso. nem na infância, idade em que se mente às mães para brincar mais ou trangredir, ou aos professores para justificar os trabalhos que ficaram por fazer.
não menti mas omiti aquelas terças feiras de paz, mágicas, castas como a manhã.

o carro à beira da estação deslizava direito a oeiras devagar. víamos o bugio. falávamos no meu sonho de lá ir um dia. do ribalta. da Odete, a nova aquisição do grupo que eu deixara. tinha ciúmes dela por estar no meu lugar.

entrava no liceu. ficava a acenar. entrava nas aulas com olhos sorridentes.

às vezes tinha uma alegria a brindar-me à saída para almoço: o carro estava no mesmo sítio à espera.

"despachei-me mais cedo e vim buscá-la. assim podemos ver os melros por uns minutos mais" .

havia sempre melros onde quer que estivéssemos os dois. um mistério da vida que não tento entender.

(ontem estava um poisado na minha janela. presentinho do cosmos. penso eu).

mas na vida que até hoje me foi dado viver nada foi duradoiro se era bom.
as cartas que pontuavam a semana não chegavam. e o carro branco nunca mais voltou.

angústia. abandono. nem raiva. espanto só.

"porquê?"


"Sick girl", Edvard Munch.


adoeci. a sério. nem o médico parecia saber porquê. só eu sabia.

acreditem: pode-se morrer de sofrimento quando é da razão que tinha o meu.