" A minha estrela é doida! Coube-me nas sortes a Estrela-doida!" - José A. Negreiros -

quinta-feira, junho 02, 2005

Estrela-Doida por Madalena Pestana

Estrela-Doida por Madalena Pestana

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

e para lá de


em

Alma minha gentil que te partiste
Tão cedo desta vida descontente
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste

Se lá no assento etéreo aonde subiste
Memória desta vida se consente
Não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa sem remédio de perder-te

Roga a Deus que os teus anos encurtou
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo dos meus olhos te levou.

CAMÕES

quarta-feira, dezembro 29, 2004

sempre

Robert Kipniss


quem me acode à cabeça e ao coração

neste fim de ano, entre alegria e dor?

que sonho, que mistério, que oração?

Amor.


carlos drummond de andrade

quarta-feira, dezembro 22, 2004

manhã alta. regresso das mulheres. espanto. dor também.



para ti rosas encarnadas.

estrada fora. óculos escuros que não encobriam o rio que me lavava a cara de água a saber a sal.

onde te teriam posto? não sabia. desligara o telefone sem mais perguntas.

a tua casa e o meu último enorme espanto.

entrei desta vez fragilizada (viva?).

a mulher que vivera contigo tinha amigas em volta que a confortavam. soltou-se delas e veio até junto de mim.

abraçou-me, a senhora.

"obrigada. obrigada. o meu marido morreu feliz porque a viu".

tremia eu. tanto. tinha acabado o mundo.

fui até à capela. deixaram-me contigo. uma velha , enganada no morto, descobriu-te o rosto.

calmo. quase feliz.

"sem vida!"

corri para fora. todo o grupo tinha chegado já.

o teu filho abraçou-me:

"perdemos o mestre, madalena!".

tropeçava já eu nos próprios pés.

insistiram para que não ficasse. não fiquei.

tínhamos dito adeus na noite em que partiras.

nada, nada ficara por dizer.

olhei para trás.

"adeus, amor, adeus".

( não.

deveria ter-te dito "até logo" como o faço agora.

vamos reencontrar-nos porque nada se perde.

soltem ao vento o pó que eu hei-de ser e ele te encontrará.

sempre assim foi. sempre nos encontrámos após os desencontros.

ressuscitei-te hoje aqui. enquanto eu viver estarás vivo em mim, comigo.

depois, amor. que o fogo me liberte para nos juntar de novo.

árvore morta seremos, mas unida outra vez.)

até breve meu cálice de afecto, minha mão, meu mestre!

já falta pouco, não demoro. tu verás.



FIM

Ao meu neto Francisco esta historiazinha de amor verdadeiro como foi verdadeiro o Amor do Jesus Cristo, o do natal.

o pouco que dormi deixou-me exausta. acordei cedo.

tinha estágio. não podia faltar. já não havia tempo para repor as faltas no infantário da misericórdia de lisboa. trabalho sofrido de que eu gostava.

aprontei-me. as duas mulheres também. sairíamos cada uma ao seu destino.

na hora de abrir a porta sentei-me no único sofá.

"ainda não vens? são horas".

"não, não vou".

"é o último dia. vais perder um ano por capricho? estás varrida de todo! que é que te deu?" .

"não sei. não vou. estou à espera".

"de quê?".

"não sei!".

desta vez entendia-as: parecia loucura. tinham razão. eu não.

eu sabia que me faltava ter a certeza do que sabia já.

sairam. fiquei no mesmo lugar. por quanto tempo?

até o telefone tocar. atendi sem pressa. coração apertado com correntes.

era a odete.

"madalena... desculpa... é para dizer... ontem depois de tu saíres, às 22h, o mestre piorou e... morreu..."

"...obrigada... odete".

vazio.

a árvore que éramos partira-se.

para sempre.




broken tree


estava sozinha. podia bem soluçar alto.

na estrada não cansei de perguntar pensando alto

"porque é que hoje lhe disse adeus, sempre disse até logo, sempre.

estava combinado nunca dizer adeus.

nunca dissemos.

porquê hoje? porquê?

e ele também respondeu..."

cansou-se a rapariga loira de me ouvir.

calei.

(mas no meu cérebro ouvia a tua voz cansada mas carinhosa, amiga:

"adeus, madalena".

se pudesse teria voltado atrás a dizer-te "até logo, amor" se pudesse...).



photo in

quase corria. uma casa pequena em rua estreita. entrei.

entrámos penso. falámos à senhora que vi pela primeira vez. olhei de vago a sala comum. a dividi-la duas cortinas laterais emolduravam a cama onde o homem estava recostado.

"palco sempre" pensei.

sentei-me na cama e dei-lhe as mãos.

não importava mais o que pensassem. senti isso imperativamente.



photo in


"mestre, eu não sabia. não me disse..."

"para te preocupar? já estou melhor..."

"mas recusa tratar-se", a voz da mulher dele.

"que é isso? o senhor simplesmente não pode fazer isso. não deixo!"

sorriu.

"para me curar querem tirar-me o teatro."

"é até melhorar..."

"não. é para sempre. não quero. não viveria assim. que me sobrava?"

"e eu?" murmurei.

"tu vais representar. eu já não posso."

"tanta coisa me pediu. sempre disse que sim. lembra-se, mestre?"

"era diferente. pedem-me que não viva".

"viva por quem o ama e voltará ao teatro. prometa!
vá, prometa-me!"

prometeu.

ofereci-lhe o livro do josé felicidade, o primeiro. gostou.

toda a gente esperava que eu saísse. tive de ir.

"não esqueça o que me prometeu.
adeus, Mestre".

" não esqueço. eu prometi.
muito obrigado. adeus, madalena".

sorria e eu sorri também.

(não quero. não não quero ressentir essa noite

e o dia que após veio.

a minha alma, ao momento, é vela a arder por ti.

terá de ser. mas logo.

deixa passar o tempo um pouco mais.

guardar-te ainda só mais uns minutos.

partilhado que fores que sobrará de ti só para mim?

é falso. eu sei que nunca conseguirei passar o que por ti contigo vivi, a mais ninguém.

eu tenho é medo agora.
estou a amar demais.

espera meu amor. mais um pouquinho só.

deixa esta lágrima secar. apenas).


entretanto dele sabia de melhoras. pulmões. tabaco a mais.

indiferença natural de actor.
cura: cuidados e boa nutrição.

(não pensava em ti portanto nessa jornada de alentejos. lavava só os olhos na paisagem intensa.
durara o dia todo. voltávamos nem tristes nem alegres, pressurosos. havia que chegar ao charco na hora dos insectos).

mas.

setúbal, um pouco antes. avisei que tinha de parar para ver o mestre.

"a esta hora? que disparate! sabes lá onde está?! quase horas de jantar. nem penses" a filha da mulher. discurso sempre igual.

"sei o suficiente não está bem e não o vejo há tempo. eu fico. sigam vocês. conheço a estrada".

"que diferença nos faz? é só um bocadinho." o namorado dela.

parámos. fui ao café esperança ver de alguém que me falasse dele. encontrei.
o mais velho do grupo. ele também a dizer que estava melhor o mestre.




"encontraram-no com o carro parado na arrábida, um médico que o conhecia por sorte e que parou. diagnóstico errado do primeiro. era do coração a doença e tinha engordado. piorou. uma besta o primeiro!"

"eu vou lá!"

"não, não vás. ele está bem agora. e.... a mulher tem ciúmes..."

"dizes-me onde ele mora ou começo por aí a perguntar?"

"está bem, levo-te lá. mas não esperes ser bem recebida pela..."

eu queria lá saber! nem o ouvia já.

(sabia bem onde tinhas tu parado o carro.
quem tantas vezes olhara dali o mesmo mar contigo, não tinha estado lá para te apoiar... )

continuei a correr. juventude. voltaram os padres

pela rapariga loira mas, diferentes agora. alguns.
outros dariam uma história longa. darão?

vaticano II. esperança de abertura entre os de fé. luta dos padres pelo seu direito a serem homens, não pedófilos ou castrados de infância.

mas tinham o seu próprio ditador. foi um momento bonito mas de parcos resultados.

serviram as reuniões pelo menos, para lhes abrir os olhos para a verdade da guerra nas colónias. crimes de guerra, não a célebre defesa da pátria!

os nossos provincianos e pacatos soldados tornavam-se feras ao ver morrer os irmãos. pobre geração de morrer e matar. guerra. pronto.


Desfile de tropas portuguesas em Luanda


aos fins de semana percorríamos o país. distribuição clandestina de informação de além oceano. grupos vários para norte e para sul.

conhecía melhor o alentejo. pensaram que eu preferiria ir com a irmã e o namorado dela.
aceitei. ou estava assim traçado?

terça-feira, dezembro 21, 2004

correria alucinante minha. sucesso traz procura.

recitais pelo país. borlas. esquerda sempre.

espectáculos novos: um recital de grupo - josé ernesto de sousa.

convites. saídas. meia alucinação.

mas sempre as fugas para dentro de mim. muitas vezes deixava o camarim pondo apenas um casaco por cima e subia a rua. cansava-me demais tanta adocicada palavra de elogio.
fugia.
falta de hábito é certo mas, não só.

no quarto tentava recordá-lo. como era antes. não conseguia.

ficava perturbada. sem saber que fazer ou que dizer-lhe mais. queria-o livre.

"tal como eu quero ser".

o seu rosto enérgico mas suave fugia-me.

costumávamos pensar um no outro, em simultâneo. ele tinha esquecido?

talvez...



foto em

tinha medo. um medo irracional.

escrevi de novo. recebi uma resposta quente amiga que me acalmou.

"estive adoentado. nada de grave, creia. já estou melhor. em breve irei aí.
fala-se muito em si no meio das artes. estou orgulhoso mesmo.
não se envaideça nunca: é o princípio do fim...
um abraço!"

fiquei feliz!

aliviei.

demais.

sem vocação para o drama. entrei de mergulho na tragédia.

numa trgédia não há esperança a adoçar finais. acaba mal. mais nada.

depois daquela tarde a lava que borbulhava em mim queria só arrefecer. petrificar.

"que viva então como quiser. conformado.
mas ele não é isso! não entendo!"

do desentender do não do amigo, veio de novo a fúria a obrigar-me a viver:
"não me deixo morrer sem ter um filho. mas não pode ser dele... tanto o queria!
não, não há deus nenhum ou isto não aconteceria desta forma.
não há deus!"

entre o decorar a peça e o curso aceitei namorados. um atrás de outro (diferentes eram os namoros de então).

mal se aproximava o compromisso fugia eu.

"não quero casar. se o casamento só trás a posse que me estragou a infância, não caso. saberei criar um filho se o tiver".

vivia duas simultâneas tragédias: antígona e o impossível amor.

a primeira estreou.

laivos de fama.

o bom: conheci romancistas dramaturgos poetas escultores pintores e gente simples que amava arte.
faziam-se excursões.

o mau: acabara-se a rapariga magra e desconhecida que podia estar livre e só em toda a parte. perdi o nome. deram-me outro diferente do da infância - antígona.
mais tarde a pide.

e o mestre?

estranho. elogiou-me. não gostou da encenação. teve pressa em partir. cansado. muito agora.

"vai receber os teus admiradores. mereces tê-los. depois eu escrevo a falar-te mais sobre o que vi. é tarde. parabéns! ainda tenho de voltar a setúbal. quis vir sozinho. ninguém sabe onde estou".

e escreveu.
a única carta dele que guardei. as outras leu-as a pide e queimei-as quando me libertaram. consporcadas.

emparedada antígona estaria a madalena livre?


foto em

tentei acreditar.

(não era frio, amor, o que te ouvi na voz. que tinhas tu de vago? de esbatido? de longe? onde estavas? onde ias? para onde caminhavas sem mim?).

segunda-feira, dezembro 20, 2004

"mestre, vou fazer a antígona".

"sim?..."

o rosto pálido mas sereno. "com quem?"
falei do encenador.
"só o vi em teatro, com o ribeirinho. nunca encenou antes nada. que eu saiba...".

parecia cansado. muito.

"é um desafio grande. se for bem encenado... por ti, sei que és capaz."

dúvida? que outro sentir, tinha na voz?

tanta coisa queria ter-lhe dito! mas o ciúme estrangulou e falei do ribalta, o grupo dele.

"está difícil. vamos ter de procurar espaço para representar. em palmela talvez. tenho um projecto para gil vicente, no castelo. chegando lá os actores de burro, como era de costume. aquela subida, sabes?"

"que bom! eu vou querer ver!"

"se tiveres tempo..."

"o tempo inventa-se".

"veremos".

porque estava ele triste? porque não me contava? o que temia?

"amo-o!" como quem continua frase interrompida. disse-o baixo.

"não, não digas. sofro. não posso. não, não posso!"

era já quase um grito mas de si para si.

"porquê? eu sou uma mulher, raios!"

"e eu casado e um velho . que haveria de dar-te por futuro.
acabarias por odiar o que dizes amar".

"digo? há quanto tempo o digo?"

"perdoa: desde sempre. eu sei que amas. hoje..."

"hoje? que veio cá fazer? vingar-se?
não devia ter vindo".

"vingar-me? nunca! e de quê?
minha querida, verás, mais tarde eu sei, mais tarde...verás que este teu louco amigo tem agora razão".

eu não queria chorar. não queria. não podia.

beijámo-nos como quem tenta afogar-se junto. e as almas fundiram-se, de vez.



em


(louco! louco! louco abençoado amor, ainda não aceito mas sei, já sei: tinhas razão!

a tua irrevogável e para mim inaceitável, razão).


nesse dia esquecemo-nos do tempo. as mãos dadas, olhando em silêncio o mar.

os melros estavam nos ninhos já.

aproxima-se o fim. arrefeço. não quero reviver

mais nada.

comecei porquê então?

pelo francisco. menino que ainda nem conheço e, imagino já a tentar aprender a nadar no mesmo mar de sal.


em

de mim para ti, só para que saibas que há amor na vida e vale a pena!

para que mesmo que te seja difícil crer numa desconhecida, acredites na única força capaz de salvar.

para ti, querido menino, esta historiazinha de amor e morte que me foi salvação.

por ti, apenas, hei-de chegar ao fim.

(queria tanto que fosses tu a encenar.

não seria possível. a falta de tempo crescera para mim também. novo curso: queria ser boa mãe - não vem nos livros. pena.
o teu teatro tinha de continuar).

saudades tuas e culpa. muita culpa. como pedir-te que voltasses? temia o sofrer de uma negativa.

e sem ti, não sofria?
escrevi.
não pensei que viesses. tinha eu quebrado o elo da total confiança entre nós.
não virias.

quarta feira. dois dias após a carta enviada. 14h15, perto da estação de algés o carro branco, ge-43-28, esperava.

(o coração pulava no meu peito enquanto controlava o andar para não correr de braços abertos para ti).

"veio. você veio!"

"claro! tu chamaste".

chegados ao nosso recanto dos melros, paço de arcos, o abraço possível.

murmurei explicações que ele não quis ouvir.

"eu entendi. deixa isso agora, vá. já passou..."

como quem acalma uma criança assustada depois de cair.

que amável ser aquele que o destino me dera conhecer!


ebolição. não há palavra que melhor defina o estado


da minha vida interior depois do que narrei.
à beira da explosão.

veio a noite de acompanhar a rapariga loira ao grupo novo.
catacumbas? sala húmida longa. as caldeiras da piscina de inverno do algés e dafundo. escuro. gente estranha. mesa comprida.

a irmã leu um fragmento de texto eu li outro. não escolhemos. tremia, a timidez.
não tinha ido pelo teatro. tinha ido. só.

"esta voz e este físico. a idade. que acham?" o armando caldas.
"sim..." "é ela. tem de fazer a antígona connosco".

(a antígona? e eu que sempre teimei em não acreditar em coincidências...).

que não, não conseguia.

"leia e vai ver. gosta de certeza! é muito bom o texto do annouih. diga-nos amanhã. queremos inaugurar o teatro com a peça."

o encenador parecia convencido. eu não.

a irmã faria o papel de ama velha. "engraçado" pensei. "tem tudo a ver".

o texto que me deram era enorme e rico. tive medo muito medo de falhar.

(o mestre quer fazer esta peça com a odete.
aceito. aceito mesmo. melhor que ela hei-de fazer).

aceitei.
sorrio agora: estava a competir.
pelo sucesso? não. pelo homem que amava e não podia amar.

à medida que lia a ebolição em mim ganhava escape. li em voz alta. assustei a vizinha.

todas as revoltas as repressões até o amor ou desistência dele por causa maior,estavam ali.
podia bem representar aquilo. iria dizer de vez um não que toda a gente ouvisse.

não sistema político.
não pide.
não moralidade estéril de mãe e irmã.
não amor de fingir.
não médicos porno.
não. nunca mais!
não ao silêncio.
antes morrer.
o meu não!

antígona.



dessin de Séverine LEPLAT

segunda-feira, dezembro 13, 2004

em consulta ainda. dois anos e meio após o início.

"esta noite há recital em setúbal. homenagem a bocage".

"tu vais?"

"claro. combinei. entro no fim".

olhei a injecção. tinha o dobro do líquido.

"porquê?"

"vais mais descontraída. dizes melhor".

ao fim da consulta senti-me tonta.

"isso passa. verás.
leva por mim uma coroa de flores ao mestre".

"não, não levo!"

bati com a porta e apoiei-me de imediato nela. o efeito da droga durou até à noite.

no teatro nem lembro de dizer o soneto que me coube. ansiava só a deixa para sair de cena: pétalas de rosa branca que continuariam a cair sob um faixo de luz.

"correu mal, mestre? estraguei tudo? notou-se?"

"não. ouve as palmas. correu bem. acalma-te. que foi?"

"ele drogou-me. queria que eu não viesse. por si. não, contra si".

"vai para casa. descansa. precisas. vê-se bem!" beijou-me a testa.

" fala ao teu pai sobre isso se achares que deves. até logo".

"até logo".

não falei ao pai.

tive o prazer de olhar nos olhos o médico e dizer-lhe:

"foi um sucesso o recital".

"e tu?"

"também".

"e o tal mestre?"

"recebeu muitas flores. ramos de flores.

a coroa guardei-a para si!"


old gate

inútil barreira de ferro. tão fácil afinal de derrubar.

nunca, nunca mais me travariam!

sinto-me só agora, neste escrever sem estilo.

até logo a quem lê.


falei ao médico do pedido feito ao amigo. disse-lhe

até mais que isso, falei de fim. olhei-o.

triunfante, o idiota!

não abrandou o cerco como eu ansiava que fizesse. apertou mais ainda. quase até estrangular. estangular-me.

árvore parasita de árvore.


há parasitas em tudo, de tudo.

do amor.

olho o médico, a irmã a mãe como formigas que devoram os lanches de quem sabe viver o campo e não suportam um cantar simples de cigarra feliz.

parei os estudos na procura de curso onde gostasse de estudar.

fiquei mais livre. para quê?
para deambular entre esplanada replecta e praia vazia. caderno e caneta na mão. alinhando palavras que mais ninguém leria.

lia de noite. falava cada dia menos. não dormia.
deixara de chorar.




em

(não. com a odete não!)

só o velho A. não descansava.
vieram os concertos, o ballet. jantares em espaços de luxo. as tias verdadeiras da velha av. da república.
as tentaçõs organizadas. calculadas ao pormenor. infindáveis. desgastantes.

de pedra a ferro, a teia.

falei com o mestre. pedi-lhe que não viesse mais. precisava viver. com ele não podia (tanto queria...).

assim. seca. sem mais porquês. também não perguntou.

"se um dia, qualquer dia, precisar não hesite. eu virei.
até logo".

"até logo, mestre".

foi preciso. eu sei que não devia mas foi preciso. tinha de arrumar as gavetas do ser.

(ainda avistava o carro deslizante e já tu me faltavas.
como se eu não soubesse que iria ser assim...).

      o corte, a chamar-se isso, era uma pausa na árvore a crescer.

      o crescimento dói. todo ele dói.

      é muito, muito só.

      em

      quem sofreria de nós agora mais?

      caos na memória, até aqui quase sempre nítida.

      porque caótico o tempo que a seguir vivi.

      "o mestre vai fazer a antígona, sabes?" disse o carlitos num encontro em lisboa.
      "com quem?"
      "com a odete, creio".
      "que é que lhe deu?"
      "não sei".

      não estranhei. fazia o prometido. sem mim. sem me dizer. estaria eu já tão longe assim?

      aceitei a proposta da irmã para conhecer o grupo de algés, primeiro acto. conversa de esplanada ainda. eram simpáticos. o teatro era espaço a construir.

      o médico deu a tudo um cunho clandestino-familiar. levava-me e à irmã com ele e a mulher a tomar chá, a casa mesmo.

      mais tarde avisava-me que a mulher ia convidar-me para ver duas horas de sol (sozinha agora). fazia-se tarde. passava a noite. entregavam-me à porta do liceu. atestado na mão. estado gripal.

      mentira. não dormira apesar das drogas que me dera. não confiava nunca.

      filmava-me na praia. gravava-me a ler poemas que escolhia.

      "se fugires tenho-te toda. a tua voz, os filmes, as tuas cartas. és minha!"

      "nunca mais serás amada assim" dizia.

      doente! que sabia aquele homem de amor?

      tinha 18 anos eu. e amava.

      éramos árvore minada quase até à raiz por toda a gente à volta. sobrevivemos.

      mas houve oscilações minhas. a distância. a pressão. a frustação de querer-te e não te poder dar amor.

      era demais.

      havia também uma ponta de ciúme a resolver. à minha maneira. sem perguntas.

      quinta-feira, dezembro 09, 2004

      a velocidade do tempo não se compadece com a intensidade de emoções.

      o médico de novo. homem de muitos recursos e artes. inteligente. perigosamente.

      havia, lembro, o pentotal nas veias.

      "então? já confias em mim?"

      "não."

      "porquê?"

      "responda-me primeiro se quer que o leve a sério: a minha irmã está curada?"

      "tanto quanto pode. há quem não possa ser levado a aprofundar mais. não resistia. tem o seu mundinho. serve-lhe. é assim com muita gente. contigo não."

      "como é que sabe?"

      "tens raça, alma! hei-de querer continuar a ver-te quando isto acabar" " e agora, já confias?"

      "mais."

      "então conta..."

      "só sei escrever. falar da minha vida não."

      "escreve-me e depois comentamos os dois".

      e assim se iniciou uma psicanálise inédita. por correspondência.


      o tempo aproveitava-o ele em seduções variadas. sem pudor. desmedido. louco.

      "queria ter-te sobre a minha secretária com uma redoma por cima. eras só minha assim."

      escrevi. sobre a mãe o pai a irmã e o mestre. desse só a admiração e a confiança passaram ao meu crivo. dos outros, tudo.

      "este mestre, já te beijou?"

      rajada!

      "não"

      "nem fez mais nada? que é que fazem juntos?"

      "falamos de poesia"

      "ainda bem. não podia ser dele o teu primeiro beijo. há-de ser meu. um dia. tu sabes. tu queres."

      "não quero"

      ria.

      não, meu amor, não queria!




      o cerco era de pedra agora. depois das rãs, do padre, o louco-médico.

      desci ao inferno a pedir força. tive-a!

      nem ele, o amigo podia agora apoiar-me. não lhe cabia. não queria interferir. só mais tade soube ele o que passei.

      entretanto, sofríamos os dois. ele por uma espécie de abandono. devia parecer isso a irritação a ansiedade constante do meu viver da hora.


      mas nestes percursos de jogos infernais alguns ficam pelo caminho. tempos passados. poucos. suicidou-se o génio louco. pobre!

      que tem o amor para incomodar tanto, se é real? ainda hoje e passaram muitos anos, o pergunto.

      segunda-feira, dezembro 06, 2004

      luisa todi. bilheteiras fechadas. átrio vazio. mais culpa minha.

      "já começou, pai!"

      "tem calma, filha. o mestre deixou os bilhetes. estou certo".

      perguntou ao porteiro. que sim. que tinha esperado até se apagarem as luzes da sala. estava preocupado. dexara os bilhetes caso ainda chegássemos.

      entrámos no escuro . melhores lugares como eram sempre. pedi a coxia para mim. para ver mais para dentro do palco.

      não conto por incapacidade a impressão sentida à voz dele por detrás do meu ombro! esopo, o mestre, o actor, esopo entrava da plateia. uma mão breve roçou-me a camisola. asa de anjo?

      o escravo. xantós. a mulher. as fábulas. amor dito por ele que eu recebia em mim. luta pela liberdade. sabedoria e o fim

      "onde está o penedo para matar homes livres? onde?!"


      ManRay

      as lágrimas corriam-me. início de riacho.

      que gigantesca alma lhe saíra pela voz pela expressão!

      "senti demais para poder continuar a sentir". diria o álvaro de campos.

      assim fiquei. não só eu que após uns segundos, de espanto, rebentaram as palmas das gentes de pé.

      (é ele! ele! o meu mestre!)

      nos bastidores aguardei. tímida. esvaziada.

      primeiro abraço prolongado e público. murmúrio:

      "vieste, tu vieste! tive medo. " chorava. "passei pelo teu lugar. senti-te pela energia que de lá me vinha. deste-me força. consegui".

      bebi-lhe as lágrimas. rigorosamente.

      tinham-nos deixado espaço como se nos envolvesse uma cápsula qualquer.

      súbito o seu rosto ficou gelado. olhei-o, lívido. arrastei-o discreta para a porta.

      "respire! respire fundo. mais. outra vez. vá...!

      desmaiara no meu peito. recuperado, devolvi-o, rasgada, aos outros. ao seu público.

      "levo comigo quem eles não conhecem. meu frágil bicho de teatro!
      quanta ternura meu amor. minha chaga aberta e a jorrar!".



      dia de estreia. o pai não chegava.

      o meu trajar simples não tinha jogos de demora ao espelho. estava pronta cedo. nervosa. irritada depois, a cada motor que ouvia e não era o esperado.
      o pai, homem sempre em correria. a não chegar a horas. naquele dia mais.

      era noite já quando veio. entrei no carro. pedi pressa.

      "ela e o mestre! vê lá se perdes dez minutos daquilo. eles começam bem sem ti..."

      o coaxar das rãs. não queria ouvi-las. olhos fixos no no negro fora da janela.
      conhecia de cór os caminhos que ficavam no caminho da estrada principal.



      "desapontei-o. falhei. ele esperava por mim."

      ausentei-me um pouco para fugir.

      sempre a tua memória volteou no meu cérebro. a espaços. obrigando-me a continuar. agora

      lembro o ciúme. por vezes sentia-o com dor de garras cravadas. a jovem da voz arrastada era mais velha. estudava direito. falavas dela. não queria perguntar.
      perguntei.


      jealousy


      "minha tontinha. não. ela é inteligente. luta pelas mesmas causas. as nossas."

      "mas fazer teatro com aquela voz?"

      "é lá da família de alta burguesia onde nasceu. tiques que ficam. conhece-a melhor e gostas dela".

      eu não queria gostar.

      só não queria os ciúmes. lembravam-me a mulher. a mãe de pedra que não conseguia ter ao colo mais que o ciúme que sempre acalentava.

      não!

      preferi acreditar.

      no entanto pela força de amar tinha eu crecido. era mulher.

      "da voz dela não gosto. parece que bebeu demais e está a disfarçar".

      riste. enquanto eu brincava com a água de limpar o pára-brisas . enchias sempre o depósito par mim.

      "promete que vais ver a raposa e as uvas . nunca me viste em palco. é muito importante para mim".

      "vou claro. sabe que sozinha não me deixam..."

      "terei eu próprio os bilhetes à entrada do teatro. preciso ver-te antes. dás-me força."

      "verá!".



      sexta-feira, novembro 26, 2004

      mas antes que ele de facto fracassasse, lutei eu. temi eu.

      as raízes pareciam oscilar. era o tronco apenas. enganoso. soprado a furação.

      mas a cada engano meu sofreste tu. meu amigo minha seiva minha fé.

      tentei narrar o atrás sem emoções. mas só buscar na memória me cansou.

      estou cansada. onde está o teu ombro para que apoie a cabeça?

      aquele homem! inteligente. perigoso. como foi que escapei?

      vou parar, que ainda é longa a
      estrada que eu julguei mais curta ao encetar. eu volto. volto sempre.

      (e levo-te comigo para onde vou. não ficarás aqui ao frio de uma história interrompida. nunca mais).


      tenho de contar rápido. não há como evitar contar.

      não quero alongar-me nesse louco. era outra história. talvez um dia. ou nunca. é o melhor.

      na terça feira eu estava lá de novo. a pedido dele sem a irmã.

      "já gosta de mim hoje?"

      "não"

      "podia disfarçar ou nunca mente?"

      "só minto a quem não aguenta a verdade"

      estendida no sofá hirta irritada silente.
      arrastou a cadeira para a minha frente e pegou-me na mão. não me movi. deixei a mão assim por 50 longos minutos. dormente e fria.

      ele falava. fazia perguntas. contava-me quem era.

      " este homem é um fauno velho. convencido que é deus e novo. só."



      ARNOLD BÖCKLIN

      as sessões sucederam-se. silêncio.

      " a continuar assim temos de terminar. o seu pai vai ficar triste"

      "não consigo falar consigo. lamento. não consigo."

      " eu tenho uma injecção que apenas a descontrai. se quiser podemos tentar. desinibe-a"

      "por mim..."

      sei hoje o nome daquele líquido que passou a injectar-me e a que eu já adivinhava o sabor no autocarro, pelo caminho, antes.

      pentotal.

      disse-me ele. mais tarde. quando descobriu que o soro da verdade não vence uma mente que não abriu as portas a ninguém. não se deixa invadir.

      "você foi o meu maior fracasso"

      "ainda bem. houve um. graças a deus"

      a timidez foi-me amiga de sempre. ainda é.

      deixo-a agora é mais dentro, invisível aos outros.

      ao tempo da consulta todos a viam em forma de silêncio ou resposta brusca pronta seca.

      a irmã entrou primeiro no consultório com uma amiga pintora de alentejos. (o pai albergava toda a gente). voltaram depois misteriosas excitadas.

      "vai lá agora. já podes entrar"

      pois. como quem vai para o baile. estava tão farta de ouvir falar do "velho A" como o tinha estado da professora-freira. visto o filme entendia: coisas de "transferências".

      homem baixo. cabeça grande. lábios grossos. olhos a querer entrar pelos meus.

      cumprimentos.

      "pode deitar-se ali. relaxe. volto já".

      "obrigada. não tenho sono" fingiu ou não ouviu.

      sentei-me de lado e esperei.


      puxou a cadeira para a minha frente: " então que se passa consigo?"

      voz de engate. pensei.

      "nada".

      "isso não pode ser ou não estaria cá".

      "e por mim não estaria. é pouco o tempo. muito onde o gastar".

      " tem medo da morte?".

      " eu não. e o doutor, da vida?".

      " eu aqui não respondo".

      " então vai ser uma conversa divertida".

      "não confia em mim ou não gosta?".

      "nem. nem".

      deu uma gargalhada. cava.

      "você gosta de poesia?".

      "já lhe contaram. pergunta para quê?".

      "não quer contar-me o que é que a trouxe aqui?".

      "o meu pai mandou. trouxe-me o autocarro".

      " sabe que corro riscos? é ilegal tratá-la antes de um ano".

      "não corra riscos. eu não pedi para vir. incomoda-o a ilegalidade? pelos vistos não".

      " sou muito livre".

      "então é esse o nome...".

      "você tem dores de estomago. porquê?" .


      "o médico é o senhor. descubra. é a si que pagam" .

      "se você não falar...".

      "que é que acontece?".

      " é sempre assim?".

      "como?".

      "agreste".

      "só quando vou ao médico e em vez de consulta me dão um questionário".

      " sabe que gosto de conversar consigo?" .

      "sabe que isto não é conversar?".

      "volte na terça feira. ficamos por aqui".

      " eu não fico vou para casa já".

      à saída gorei as espectativas das duas raparigas e segui em silêncio.

      terça feira era um dos nossos dias. como ia ser agora? como ver-te?

      ter-lhe-iam falado de ti?

      claro que sim. a rapariga loira. como ao padre.

      o que eu sentia era meu e nunca o iria partilhar com ele.

      não gostara do médico. só da voz.

      "que se lixe!"


      quinta-feira, novembro 25, 2004

      "diabo! uma endoidou e lá tenho que me tratar de arrasto."

      "ainda a história do médico? afinal sempre vai?"

      "e ainda por cima diz o tal médico que é uma excepção. que tenho um ano a menos. deixe que o faça. que eu pressa não tenho".

      "pode ser interessante. sabe quem foi o freud? não? está um filme sobre ele agora no cartaz. quer vê-lo?"

      "só os dois?"

      "se conseguir, sim. vê já está a sorrir!".

      mas a minha estrela estava a ser atraída para um buraco negro. e nem ele o conseguia ver.


      foto de

      soubera ele o horror que eu iria viver e teria feito qualquer coisa louca para o impedir.

      (mas, se por vário tempo nem eu me apercebi do horror...)

      o diabo é macio como veludo. não vem com garras nem cornos, se nos quer.

      vai ser difícil. saberei contar?

      amanhã vejo. hoje não. hoje não.

      não era de costume querer festejar aniversários meus.

      os jantares de família acabavam quase sempre em discussão. era só mais um dia. que passasse.

      mas num certo nove de novembro a mãe abriu a porta a quem tocava. passara já o almoço.

      "olá está bom? entre se faz favor".

      a educação fria que lhe escutei na voz fez-me querer ver quem era. falava com a mãe.

      "vim pedir-lhe um favor"

      "diga. se eu puder..." o tom de prevenção alentejana, não fosse o diabo tecê-las no pedido.

      " tenho bilhetes para o teatro. à tarde. posso convidar a madalena par ir comigo? é o dia dela" .

      silêncio.

      "claro, a irmã também." apressado.

      "se for à tarde e as duas. é que o pai não gosta..." era sempre o pai. papão sobrevivente para os nãos da mulher.

      entrei na sala. e o beijo repetiu-se nas flores que me entregaste. as primeiras. como o beijo o fora. corei.

      "obrigada. rosas encarnadas!" sorri e olhei-te. desviámos o olhar.


      "quer ir ver a antígona com a maria barroso? é uma grande actriz. dela pelo menos você vai gostar. esteve proibida de trabalhar. as razões você conhece ou imagina".

      "claro!" havia aniversário naquele ano, sim!

      voltei ao lugar detrás do pequeno carro. dois anos e meio davam honras de adulto à rapariga loira. odiei que fosse no meu lugar. que fosse.

      remeti-me ao silêncio enquanto eles falavam sem os ouvir sequer. depois a magia do teatro envolveu-me numa cápsula de emoções.

      no final:

      " não chore. é tão sensível..."

      "não é por isso, mestre." quase fúria.

      "então?"

      " é que eu... eu fazia melhor a antígona do que aquela fez". não lembro o nome de quem representou a antígona no villaret.

      "havemos de fazer. por isso quis que visse".

      sorrias. magnético. transparente.
      acreditei.

      foto em

      como saber então que a representaria mas, sem ti?

      a minha estrela negra.

      ainda agora tento driblar o destino e esquecê-la. não posso.

      eu queria tanto um final feliz...

      tanto sonhámos sem poder sonhar!

      os moínhos que compraríamos um dia. as idas ao farol da barra. as peças onde eu seria a actriz. a Antígona que só comigo tu farias. tanto sonho. tantas horas de água clara. azul. tanta serra. tanto mar.

      aconteceu o beijo merecido como a aplacar o arder de sonhos impossíveis.

      lembro a textura dos teus lábios como quem lembra o cheiro da criança que pariu e amamentou. lembro-lhe a humidade. o suave. o carinho.

      a angústia depois.

      "porque parou?"

      "oh meu amor! eu não posso não devo."

      "porquê?! é minha a vida! por eles?"

      "não. por ti. basta-me olhar a confiança dos teus olhos lindos. não, meu amor.
      um dia hás-de entender... perdoa!"

      o teu olhar tão triste. tão tão triste. sofrias. e sofrias por mim.

      tinhas razão: sei hoje. sei e rasga-me a alma a grandeza de tudo o que me deste.
      não foi inglório, amor, posto que estás aqui. tão vivo em mim.


      "não, meu amor, não posso" .


      ecoa ainda em todos os espaços aonde espalhámos esse amor.

      quarta-feira, novembro 24, 2004

      se de uma das vezes em que corri feliz ao seu encontro

      e lhe decorei com flores o carro branco e contei a bizarra ideia do meu pai, ele tivesse apenas dito "não" eu não cederia por difícil que fosse.

      abriu um pouco mais os olhos líquidos "psicanálise, cá?" e a cara fechou. nunca o ouvi contradizer os pais.
      se ele tivesse dito o que pensava. falado dos seus medos da manipulação de mentes pelos homens...

      não disse. o carro já rolava. iam estrear uma peça sobre Esopo. queria-me lá.

      eu iria.

      era dele o papel principal. como faltar?

      esqueci o resto. afinal era um médico. ia e vinha-me embora. que mal podia haver?

      o mesmo tinha pensado o pai.

      ali um pouco à frente havia luz e mar.



      os encontros secretos não eram escondidos de ninguém. todo o liceu os via

      até o contínuo facilitava a saída, se um professor faltava e o mestre estava paciente à espera. as colegas riam. "sortuda! vais passear"

      o mar era tão perto e havia sempre tanta coisa a dizer!

      mas o corpo crescia. magra ou não tinha eu coisas de sentir de mulher e amava.

      "tabu!" não entendia. antes, não queria continuar a entender. queria estar viva.
      agora!

      dividida, dormia mal. escrevia. lia. até quase amanhecer.

      a rapariga loira tinha sido dada por curada. o médico maravilha, psicoterapeuta, foi contactado para mim. exigência do pai que queria para as filhas o melhor. sempre quisera, querido homem do bem!

      "não preciso. não quero pai. não estou doente!"
      "isso o médico é que sabe. essas dores no estomago a toda a hora... vais lá e logo vês. mal não te vai fazer". fui.

      antes nunca tivesse ido. antes nunca!

      a minha estrela não é apenas doida. ela é negra também.

      mas envelheci súbito. perdi a ingenuidade. roubaram-ma!

      continuámos a encontrar-nos. agora duas vezes numa semana só. sem pudor de mentir. e porquê tê-lo?
      escrevias. mandavas-me poemas. eu dizia-os depois nos recitais que tu encenavas com os outros.

      "você não precisa ensaiar. está-lhe nas veias. a poesia de si brota. é inteligente. eu confio em si".

      chegou de uma vez o carteiro e entregou-me directamente carta dele. abri-a subindo a escada. entrei em casa.

      "mãe. tome. leia." disse. brusca.
      "estás maluca? isso é para ti? que é que tu queres agora?" a rábula.
      " que a leia à minha frente. está aberta. assim não perde tempo a procurá-la nas gavetas ou a abri-la a vapor".

      foi para a cozinha. eu para o quarto.

      estava dito. ninguém voltou a abrir correspondência minha.

      e onde ficou a mãe que nunca tive a certeza de ter tido e agora se fechara para mim?


      Eruption cloud


      onde? onde?

      terça-feira, novembro 23, 2004

      nos ouvidos ecoava o nunca ouvido ainda

      "porque é que tu chegaste tão tarde à minha vida? tão demasiado tarde!"

      chegara sim. sabia-o tão bem quanto ele o sabia. respeitava-o mais por isso mesmo. mas tínhamo-nos subterraneamente procurado até que de raízes nos tornáramos árvore: uma só.

      ou uma impressão física-espiritual no outro. tanto faz.

      amávamos. isso é experiência para eleitos. tínhamos sido eleitos pela vida.

      foto em

      e morta ou viva a árvore, essa união sobreviveria em nós. no que ficasse. no que fosse primeiro.

      como cheguei a ti naquele dia? terá sido o vento? virei pluma?

      um instante passou depois do que parecia um século sem ti. achei-te magicamente. havia gente à volta? creio que sim.

      "madalena!" o grito estrangulado.

      "mestre! porquê? porquê?" molhou-me o rosto
      a lágrima da árvore que eras tu.


      "Comme des larmes de lumière"- Maryannick Cornou




      subia-nos os corpos uma sinfonia só audível por nós.

      "foi horrível... não voltou... o que foi?" precisava eu saber ainda. toda a história.

      havia gente sim: era uma lojinha pequena onde raramente estava e onde eu nunca fora. a sócia olhou. depois saiu. ficámos sós. momentos.

      "leia esta carta, quer?" espantantei-me "de quem é?" "leia. pensei que conhecia o conteúdo..."

      li. não descrevo o horror.

      "como é que ela fez isto? tanta maldade! cruel como o demónio seria se existisse!"

      " deus e o diabo somos nós todos os dias. cada um escolhe o que quer ser. deixe isso.
      nós sabemos sobreviver agora que sei que não é você que pensa assim".

      "mas fez de si um monstro!"

      a rapariga loira endoidecera? não sei. não quis saber.
      qualquer coisa se partiu nesse dia. irrecuperavelmente.

      terminava o nosso tempo de condenados. já se ouviam os passos da sócia que chegava.
      combinámos passar a tarde em tróia. foi um dia feliz. (não fora a confiança perdida na irmã. para sempre).

      à tarde levou-me até ao barco.



      cheguei à beira noite.

      "que é que andaste a fazer? a estas horas?! depois ainda queres que te deixe ir."

      "estive com a Júlia" era verdade. tinha ido connosco para tróia.

      ouvia-a telefonar.

      fechei a porta do quarto para poder continuar feliz. sorri.

      um dia ouvi o pai, tinha uma voz linda! dizer à mulher

      "deixa-a ir a Setúbal. aquele homem nunca lhe fará mal! ou preferes que ela morra para aí, capricho teu? deixa-a ir. vai cedinho e volta cedo e pronto. ela sabe a cidade. toda a gente a conhece".

      não me foi fácil. já se me fora a energia quase toda. mas tinha de saber!

      não queria acreditar que não merecesse ao Amigo uma palavra apenas. esse pouco.

      esse não era ele!

      dias passados, quando a mulher acedeu por fim, eu corri à procura da verdade. ainda assim, com medo de perder.

      de caminho encontrei o carteiro "tem correio para mim?" "outra vez? ainda ontem teve. os selos andam caros... para a semana há mais, menina".

      "a teia! foram elas! eu sabia! o mestre nunca se esqueceria assim!".

      a raiva devolveu-me a energia gasta. uma raiva que ainda neste momento me aquece a pele do rosto e acelera o pulso.

      perdoei. não, nunca esqueci.


      habituada desde infância a clandestinidades e segredos

      não precisei mentir. nunca mentia por pura falta de jeito para isso. nem na infância, idade em que se mente às mães para brincar mais ou trangredir, ou aos professores para justificar os trabalhos que ficaram por fazer.
      não menti mas omiti aquelas terças feiras de paz, mágicas, castas como a manhã.

      o carro à beira da estação deslizava direito a oeiras devagar. víamos o bugio. falávamos no meu sonho de lá ir um dia. do ribalta. da Odete, a nova aquisição do grupo que eu deixara. tinha ciúmes dela por estar no meu lugar.

      entrava no liceu. ficava a acenar. entrava nas aulas com olhos sorridentes.

      às vezes tinha uma alegria a brindar-me à saída para almoço: o carro estava no mesmo sítio à espera.

      "despachei-me mais cedo e vim buscá-la. assim podemos ver os melros por uns minutos mais" .

      havia sempre melros onde quer que estivéssemos os dois. um mistério da vida que não tento entender.

      (ontem estava um poisado na minha janela. presentinho do cosmos. penso eu).

      mas na vida que até hoje me foi dado viver nada foi duradoiro se era bom.
      as cartas que pontuavam a semana não chegavam. e o carro branco nunca mais voltou.

      angústia. abandono. nem raiva. espanto só.

      "porquê?"


      "Sick girl", Edvard Munch.


      adoeci. a sério. nem o médico parecia saber porquê. só eu sabia.

      acreditem: pode-se morrer de sofrimento quando é da razão que tinha o meu.

      segunda-feira, novembro 22, 2004

      era verdade. escrevera. só a mim! corri. acocorei-me

      e li saboreando uma carta quase sem paladar. carta para todos lerem. a perguntar por todos. dar notícia de todos. cumprimentos a todos. a pedir novidades.

      li reli. era a letra certinha a azul. guardei a carta como quem guarda um ninho (não sem antes a ler a toda a gente)

      a rapariga das tranças não pareceu gostar. não entendi. talvez por tê-lo ela conhecido primeiro...
      rápido esqueci isso, o pai dizia "se lhe vais responder conviada-o para almoçar quando vier. gosto dele." o pai gostava de quase toda a gente.

      escrevi e ele veio na volta do correio. trazia túlipas para a mãe que vi corar pela única vez. o pai teve de sair para trabalhar e ficámos os dois na sala lado a lado.

      mas a mulher corria o espaço cozinha-sala em questão de segundos.

      parecíamos tão distantes que doía.

      "eu volto sempre às terças de manhã" "tenho eu aulas..." posso levá-la lá, espero-a na estação. quer? sempre são 10 minutos..." sorriu.


      quis. com a vida toda! e assim do longe se fez perto. sem intervalos de mãe.
      uma ponte no deserto em que eu vivia.





      de nada lhe servira o patéctico vai-vem.

      pensava eu...


      que viam aquelas mulheres que mais ninguém, nem nós, conseguia enxergar?

      a cidade. a casa. as pessoas. "sai" diziam. "vai ver"

      mas ver o quê? nunca tinha vivido maior vazio. nada tinha sentido.
      a minha cidade ficava do outro lado daquele tejo sem pontes. as minhas gentes falavam-me na rua. e tu? voltaria eu a ver-te?

      fechei a porta a tudo o que não fosse a violência da minha revolta. fechei-me a tudo pois não havia nada.
      deixei de falar. de comer. não tinha qualquer medo da morte. que viesse se viver era assim.

      "deixa-a a estar, isso logo lhe passa" ouvia do meu quarto a voz da mulher para o pai. "era o que faltava: não quer sair não saia!".
      alguma vez aquela mulher terá amado? pergunto hoje ainda.


      Lonelinesse

      a rapariga cortou as tranças. dei por isso. era o mesmo quarto. não gostei.
      ela saía. procurava amigos. procurava o que sempre a fez viver: um qualquer destaque. nunca gostou de ser desconhecida.
      em breve o conseguiu. gente de teatro. havia um grupo em algés: primeiro acto.

      "vai tu. quero lá saber! teatro só com o mestre."

      a rua dava para um muro sobre um palácio. via-se o rio. até aí eu ia, espreitar os barcos que levavam a morte para áfrica deixando às mães o direito a chorar...

      um dia o carteiro chegou: era para mim!

      queria acreditar. nunca me mentira. mas haveria o tempo...

      houve ainda a despedida formal com a família. o pai admirava o mestre há já um tempo. um pouco de ciúme também. quem ensaiava agora?

      "terei sempre quatro bilhetes reservados para as estreias quer vocês venham ou não. já disse à madalena que se me permitirem lhe escrevo com notícias do grupo e poemas novos".
      que sim claro. a pressa da mudança. abraços deles.
      descemos juntos o elevador. sem o olhar. temia. por mim.

      "um dia, quando eu já for velhinho estarei numa janela a vê-la passar, conhecida famosa e direi: quando ainda era uma rapariga era minha amiga e trabalhou comigo".
      "pare! quero lá saber de ser famosa eu!"

      olhei-o.

      o silêncio pesou e a lágrima caiu.
      corri para casa. adivinhando o carro a afastar-se sem esperança de regresso.


      foto em

      sexta-feira, novembro 19, 2004

      não não não, não podia ser verdade!

      não depois de ti. não de repente. retalhada de lâminas guardava dentro o grito.

      ódio. a quem? pela primeira vez.

      "vamos embora para lisboa, o pai tem de ir a minha irmã também. e agora, mestre? e agora? não aguento!"

      queria dizer-lhe mais: "e o meu amor por si?!"

      não falámos de amor. que não podíamos!

      esfarrapados espíritos.

      nos teus olhos a lágrima que nunca poderia cair: " lisboa é perto, a madalena vem cá. diz poemas connosco. prometo! e eu vou. eu irei sempre. mas não, não fique assim..."

      e o abraço de quem parte para a morte, consomou-se. longo. inseparável. para a vida!

      Où Suis-je ? de Leboeuf

      nunca lhe falei da confissão. para quê? doeu-me a mim. bastou.

      o recital que preparáramos chegou. a fina flor da terra. jornalistas de arte e cultura. pavor!
      aplausos. muitos. "estão a chamar-te volta" dizia o Luciano acariciando-me os cabelos "volto nada".

      queria sair dali no "carocha" e rodar beira rio e viver meia hora daquele frémito que nos era mútuo e de que não falávamos não fosse o encanto quebrar-se.

      "estiveste muito bem! soube-o desde a primeira vez em que te ouvi. obrigado. não deixes a poesia nunca. está em ti".

      costumava tratar-me por você. estranhei. senti-me mais mulher. um sentir bom.

      (mentira: coração apertado.
      queria ter sido bailarina, não deixaram. que era alta diziam.
      queria poder ter dançado para ti. tinhas pedido alma eu tinha-a dado. mas o que não daria eu se tu pedisses?

      espanto para quem hoje ainda não sabe: o que temiam, ele nunca pediu, sequer tentou!).


      Degas
      EdgarL'etoile OR La danseuse sur la scene(The Star OR Dancer on Stage)1878


      "comecei a recitar aos 5 anos, em cima de um banco lá de casa" sorriso. sabia lá eu que mais dizer...

      se soubesse dançar o corpo falaria sem voz.

      quinta-feira, novembro 18, 2004

      isto é só para ti, mestre, para sairmos os dois juntos do

      desagrado de lembrar o que nunca deveria ter acontecido. encontrei uma foto da escola para onde me atiraram quando me mudei para a nossa cidade, antes de me rebelar e passar para o liceu. nunca consegui gostar de cálculo e outras coisas comerciais.



      clube de imagens

      saída a escola era atravessar o parque do bonfim, passar o estádio velho do nosso vitória e depois de um carreiro cheio de silvas, chegava à praça do brasil. olavo bilac bem no meio.

      O sapo-tanoeiro,
      Parnasiano aguado,
      Diz: – Meu cancioneiro
      É bem martelado.
      O meu verso é bom
      Frumento sem joio.
      Faço rimas com
      Consoantes de apoio.
      Brada em um assomo
      O sapo-tanoeiro:
      A grande arte é como
      Lavor de joalheiro.
      Ou bem de estatuário.
      Tudo quanto é belo,
      Tudo quanto é vário,
      Canta no martelo.


      pronto: já estou a sorrir.

      até eu um dia me confessei. a doença da rapariga das tranças

      teve força de fé. da segunda vez que consegui coragem para voltar, o franciscano que frequentava a casa pelo aniversário da irmã e casamento dos pais (mesmo dia), estava diferente.
      não era já o jovem em cujo jardim eu apanhava rosas pequeninas. murmurava
      "não tens mesmo mais nada para contar? não fazes outras coisas?" "o quê?!" queria tê-lo deixado a falar só. tinha de saber! "quais?" "aquele teu amigo, o do teatro e tu..." "não".

      nunca mais me confessei a padre nenhum.

      a teia estava urdida e eu de tão transparente e segura e feliz tropeçara nela sem me aperceber.

      fiquei com a alma pegajoja dos fios da teia das aranhas-humanas. conhecia-as.

      jogo rasteiro. minagem de terreno. frontalidade nula.

      lembrei a infância infeliz e o barulho de rãs a coaxar no charco.


      foto em

      primeiro alerta: nunca baixar a guarda!

      deixei os recantos solitários do

      parque do Bonfim. percorri as ruas estreitas da cidade velha. os dias eram longos demais se te não via.

      que fazíamos? perguntarão agora como o perguntaram a mulher e rapariga das tranças, agora recheada de freudianas ideias. (pelo menos desistira de ser freira em pouco tempo).

      nada que um bom deus não pudesse abençoar. encontráramo-nos e isso nos bastava. tão pouco tempo. tanto tempo perdido!

      o pai ia às vezes ter connosco ao fim do ensaio. tomávamos café no Esperança (não sei se ainda existe).


      Foto antiga no
      Sapo


      de uma vez um pescador, o Manuel, que se juntava ao grupo, soltou um sonoro "merrda parr iste tudo!" alguém lhe disse "pá, olha que aquele senhor é doutor, presidente da câmara" resposta pronta: " à vocemecê é dótorr? atão meta-me isso dentrro de uma carrcaça, a verr se se come!"

      sorrio de lembrar esse tempo. estava tão feliz que esquecera que as teias se urdem em silêncio artisticamente sob os nossos olhos, até nos enlearem.